Eu fui dormi triste, como nos outros dias dessa mesma semana, mas acordei de manhã com o interfone tocando. Não imaginei quem fosse. Atendi indiferente. Mas era João. Meu coração não pulou, mas fiquei feliz de repente. É loucura não é? Você quer esquecer alguém e se ela aparece se sente tão feliz de repente. Ele subiu, ficamos na cama conversando, rindo, nos mordendo, foi tão agradável. Ele não pensou assim. Tinha sido a primeira vez que eu não o tratava com tanto carinho. Saiu daqui, meia hora depois, um pouco estranho. Eu fui até a janela para vê-lo ir embora. Como eu sou patético! Ainda gritei “ei” e mandei “tchau”. Patético! Mais ainda por que passei o resto do dia sorrindo por tê-lo visto. Almocei normal, e sai de carona com mamãe pra fazer um favor para mãe de uma amiga minha. Ela me deu 900 reais na mão e eu nem pensei em fugir. Pra onde iria se o que eu queria mesmo estava aqui. Paguei o que tinha que pagar pra ela e fui até o shopping. Foi bastante divertido. Encontrei umas amigas antigas, amigas de ex-namorado que ainda me faz muita falta, e tinha lá outras meninas também, que eu nunca tinha visto na vida, mas que tive o prazer de conhecer. Fiquei por lá, mais ou menos, uma hora. Nós juntos rimos horrores. Eu estava feliz. Patético! Voltei pra casa correndo, tinha marcado algo grande com o meu pai. Pela primeira vez em quase 15 anos eu iria ao centro espírita com ele. O transporte demorou a chegar, ficamos sentados, lado a lado em um desses canteiros bonitos, cheios de cajueiros. Quis falar pra ele sobre a visita que recebi, mas não falei. Talvez tivesse mudado alguma coisa, nunca vou saber. Estava indo pro centro por causa das minhas tristezas sempre constantes, talvez um pouco de fé e espiritualidade ajudassem em alguma coisa. Assim pensava meu pai e eu, graças ao desespero em que me encontrava. Tudo lá é muito grande e cheio de parafernálias. É assustador no começo e depois só piora. A primeira coisa que fiz foi ir falar com uma preta velha, que o meu pai disse que eu podia fazer qualquer pergunta a ela.- Eu tenho andado triste, sabe? Fico feliz às vezes, mas triste é o meu normal. Fico pensando, às vezes, se vai ser assim a vida toda.
A preta velha me acolheu como um neto, e eu me senti seguro.
- E de onde vem essa tristeza, meu filho? – Ela perguntou.
- Acho que vem do coração.
Ela disse muita coisa. Muita mesmo! Coisas que espíritos falam, sabe? Que coisas do coração são complicadas, que isso vem de uma coisa mais antiga, que são as energias negativas influenciando. Gostei de ouvir o que ela falou.
- Essa tristeza não é de agora não, vem de antes, bem antes. Uma decepção que você sofreu... – Nunca me revelou o que poderia ser. –... E essa tristeza se enraizou no seu peito, no seu coração. Agora, você não consegue mais viver sem essa tristeza, não sabe como é a vida sem ela.
Preto-velhas sabem das coisas. E por mais patético que fosse ela me disse uma coisa que fez meus olhos brilharem.
- Mas eu vejo o meu filho feliz, eu vejo alguém na vida dele e vejo ele muito feliz.
Será mesmo possível? Felicidade mesmo? Acreditei na preta velha como se fosse a minha avó falando ali. Desde manhã o mundo estava me dando motivos pra achar que eu poderia ser feliz. Eu até cantei e dancei na rua quando estava indo pagar as contas da mãe de uma amiga minha. A preta velha também disse que alma gêmea não escolhe o corpo onde encarna, e que eu não devo me preocupar se encontrar meu amor em um homem ou em uma mulher. Eu banquei o HT desde que desci do carro, não tinha como saber que eu curtia meninos só por olhar. A velha sabia das coisas. Já no fim da conversa ele me disse que eu era especial e que a casa adoraria me ter como um deles, me deu até convite, pois eu era um “Médium de incorporação”. Tenso, né? Também achei. Mas todo aquele papo de ser especial me encheu muito a bola. Perguntei a preta o que as cartas significavam. Ela não soube dizer, mas me deu uma dica: - São seus guias querendo lhe mostrar o caminho, a muito tempo ele querem lhe dizer alguma coisa. – Nunca entendi nada, por isso que a partir de hoje começo a escrever. O resto da noite foi bem chato. Todos os trabalhos e aquela fumaça... Não me senti nada leve, nem relaxado. Devo ter feito alguma coisa errada. Não sei. Na volta pra casa passamos na casa da minha avó pra buscar minha mãe e foi lá que encontrei a carta de hoje. É a n° 118 que eu tenho guardada. Tem muitas outras espalhadas por ai. Um 8 de ouros, em boas condições. O que significa? Achei a carta, comi cachorro-quente, na mesa tinha um menino lindo, amigo do meu primo, vou já fuçar o Orkut dele, e voltei pra casa. Lavei os pratos, minha melhor amiga acabou o namoro, desci com o cachorro falei com João no MSN. Tentei falar com ele, compensar por ter tradado ele com indiferença de manhã, mas dessa vez ele que me tratou mal. Disse que não fazia questão de me ver... Melhor, disse que não fazia questão se eu gostasse dele ou não. Disse que pra ele não faria diferença alguma. Nesse caso, não vi alternativa se não me afastar, pra que eu possa tentar seguir em frente, mesmo gostando tanto dele. Patético! Fiz o que sempre faço. Nunca cresci mesmo. Exclui os 3 e-mails dele do MSN, assim não sou tentado a falar com ele toda vez que da saudades. Sei que ele não vai falar comigo, não há nada a dizer. E é assim que termina meu dia. Eu indo dormi triste outra vez. E agora, de que adianta ser “Médium de incorporação”?
E o que significa a carta 8 de ouros?
Vou esperar pra ver o que acontece amanhã, se for algo grande, escrevo aqui. Se não, só escreverei quando achar outra carta.
Não precisa ficar assustado. Achar cartas de baralho no chão é tão constante na minha vida quanto a tristeza.
Ravi Aynore.
Arrocha tchê!
Ps: semana passada achei um nove de ouros. Será algum tipo de contagem regressiva?
eu te amo e o joão é um merdinha.
ResponderExcluir“Médium de incorporação”. Tenso, né?
ResponderExcluirde fato.
Toda vez q vc se referiu ao ser "patético" eu senti constantes VVP (vergonha pela pessoa)
mas... vc eh melhor q isso.
só não sabe .
Amo o Fábio.
ResponderExcluirArrocha tchê!